quinta-feira, 28 de maio de 2009

REFLEXÃO À BEIRA-MAR


"Mas pra que tanto céu?/Mas pra que tanto mar?/Pra quê?/De que serve a onda que quebra no meio da tarde?" (Inútil paisagem, Tom Jobim-Aloysio de Oliveira)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

DILEMA DO "TIC-TAC"


"Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre 'tic-tac' e nunca 'tac-tic'... Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?"(Mário Quintana)

O tempo é mais uma convenção humana, dentre tantas, com a diferença que provoca em nós efeitos curiosos e diversos. Tentamos ao longo da vida correr a favor do tempo cronológico e nunca contra ele, sob pena de assistirmos, impassíveis, à dinâmica da vida, sem direito a uma segunda chance. Por isso o tempo é "o senhor da razão" e não nos concede a retomada do passado. Desde cedo, passamos a conhecer o estranho contrato que se estabeleceu entre a entidade tempo e os nossos corpos. Envelhecer é algo inexorável para todos nós e não há meios de evitar a sua passagem, mas, em nosso íntimo, o "tac-tic" de que se refere Quintana ganha outro sentido de tempo e outra percepção de contagem. Nesse espaço, damo-nos conta de conviver não apenas com ilusões auditivas, mas também de nos rendermos às forças de um tempo que só mede a si mesmo.
P.S.: não consegui identificar a autoria da foto. Mas o crédito dela será dado tão logo se pronuncie o seu autor.

INSPIRAÇÃO GREGORIANA


"Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,

Da vossa alta clemência me despido;

Porque, quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado."

(Gregório de Mattos, A Jesus Cristo Nosso Senhor)
Errar faz parte da natureza humana e bem sabia disso Gregório de Mattos, o Boca do Inferno. Admiti-los era até possível, mas, submetê-los à remissão de sua culpa frente a Jesus no madeiro, é outra história para o polêmico poeta. Em tom provocativo, Gregório desafia a divindade a perdoá-lo indefinidamente. Só assim, para ele, teria o ônus da prova quanto à misericórida divina. Uma provocação semiótica interessante é constatar o quão internalizado está os ícones que se remetem à divindade e os seus efeitos sobre os praticantes da fé cristã. Convidar religosos a exercitarem o diálogo proposto pelo Boca do Inferno seria uma heresia descabida para os valores previamente eleitos para expressar religiosidade e, sobretudo, para externar a comunhão com Deus. Curioso observar, em tais instantes, a sugestão de pequenez frente ao impacto do crucifixo ou de uma imagem religiosa. Com propriedade, o fotográfo Francisco Mendes captou a sugestão de redenção que o Cristo e o madeiro despertam nas pessoas. Numa interpretação mais surreal, o madeiro evocaria a imagem de uma nave rumo às paragens celestiais, disponíveis apenas aos que já se despiram dos seus pecados - principal exigência para os viajores.

QUAL É A PRÓXIMA JOGADA, PARCEIRO?




Diz-se que o xadrez aguça a inteligência dos seus jogadores e também estimula, neles, a concentração e a habilidade tática. Pode até ser que vivamos sob um tabuleiro de xadrez e nos sintamos a estratégia em pessoa . Convenhamos que ninguém gosta de sentir o peso do "xeque-mate" em seu espaço. Muitos sabem o que é viver como "peão" e conviver, paradoxalmente, com "reis", "rainhas" e "torres" de marfim - figuras, na verdade, apáticas, que estão circunscritas aos contos de fada, aos naipes do baralho e à imaginação de candidatos à realeza. No máximo, eles só sabem dar ordem e viver nas nuvens.
No lugar de aceitarmos a polaridade preto x branco no dia-a-dia, melhor seria transitarmos por aí, com liberdade, sem nos limitarmos a fronteiras bicolores. Colheríamos bons intercâmbios e sairíamos de um foco enxadrista.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

COM OS PÉS NA ESTRADA


Sei que estou em atraso com vocês, amigos internautas. Mas convenhamos que as incumbências de um estudante de Jornalismo são quase heróicas, nesse cotidiano acelerado. Pudera eu balançar por aí no estilo cabeça-de-teia, mas a minha forma física não o permite. Mesmo na ausência de dotes extraordinários, consigo dar os meus pulinhos e, com alguma sorte e muita transpiração, ter algum êxito, principalmente nos afazeres acadêmicos. Agora, este blog passa por uma transição de disciplina. Peço licença a querida Tânia Motta e entra em cena a professora Suzane Costa, com suas aulas de Semiótica. É chegado o momento de trilhar alguns corredores, alguns arbóreos, outros sombrios, outros luminosos, uma transitividade total. Para tanto, percepção aguçada.

domingo, 19 de abril de 2009

NATUREZA EM PERIGO OUTRA VEZ

Quando postei o primeiro comentário, para este blog, sobre o fenômeno da inversão térmica, acabei citando a maré vermelha e seus danosos efeitos no litoral de Saubara e adjacência. À época, o Conselho de Recursos Ambientais (atual Instituto de Meio Ambiente) declarou, oficialmente, que a mortandade de peixes, em grande proporção, teve causa natural. A mãe natureza, desta vez, não teve culpa pelo derramamento de óleo que atingiu a praia de Coqueiro Grande, em São Francisco do Conde, até a de Caípe, divisa entre Madre de Deus. Foi culpa dos homens que trabalham na Refinaria Landulpho Alves.
A imprensa local noticiou que a ocorrência do vazamento se deu no dia 15. Por enquanto, desconhecemos a extensão dos danos ambientais. Pelo menos, o IMA se pronunciou e disse ter ocorrido infração ambiental gravíssima. Não precisamos ser Sherlock Holmes para deduzir isto: iminentes riscos à saúde humana e à vida marinha daquele entorno. Vamos acompanhar o andamento dos trabalhos de remediação e a devida responsabilização judicial da refinaria pela agressão química à natureza.
Até lá, pescadores e marisqueiras ficam a ver navios. Sem o peixe de cada dia ou mesmo os mariscos da época, como sobreviver? Por incrível que pareça, as nossas colônias de pescas ainda contam com estrutura artesanal de trabalho e quase nenhuma modernização dos equipamentos. Uma indagação aos senhores técnicos: como explicar a ocorrência desses acidentes haja vista os equipamentos de ponta e a especialização da mão-de-obra?
Gonzagão, em um prenúncio musical, já alertara em seu Xote ecológico (1989): “O peixe que é do mar?/ Poluição comeu”.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

ESQUECIDOS ATÉ NA MORTE

Ao nos depararmos com o falecimento de pessoa querida, desejamos a ela um descanso em paz. Mas não é isso que aconteceu a treze corpos “esquecidos”, desde 2006, no Hospital Municipal Lourenço Jorge, localizado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. De acordo com o site do G1, há corpos sem identificação e outros ignorados pelas famílias. A direção do hospital e os juízes da 6.ª Zona de Registro Civil se reuniram hoje a fim de providenciarem a liberação judicial para os cadáveres.
Isso é o cúmulo do absurdo!
Se nos atentarmos para o quadro, temos a sensação de estar em um beco sem saída. Ou somos vítimas dos papa-defuntos, investindo contra os bolsos dos familiares, ou ficamos à mercê dos rituais hospitalares e cartorários. Há muito que a morte se tornou um evento rentável e, ao mesmo tempo, banalizado. A despeito do ritmo frenético em que vivemos, fujo desse olhar descartável para quem se foi e vou ao encontro da introspecção.
Minhas antenas não conseguiram captar o porquê da omissão familiar em não reclamar alguns corpos. Até os criminosos são assistidos por seus entes queridos, na última hora. Seria uma possível extorsão praticada por alguns funcionários do hospital contra alguns familiares (carentes)? Ou os cadáveres seriam desviados, pelas brechas da lei, para fins de experimentos por algum magarefe?... Tantas conjecturas e nenhum sentimento.